A escuridão e o mato alto transformam retorno na CE-040 em armadilha mortal em Pindoretama
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| Motocicleta em chamas após colisão na CE-040 no retorno das localidades de Mangueiral e Sítio Correia em Pindoretama | Foto: José Nogueira |
A noite do último dia 05 de março, numa quinta-feira, será lembrada com dor e revolta pelos moradores da localidade de Mangueiral, em Pindoretama.
Por volta das 18h45, o retorno do quilômetro 48 da CE-040, um ponto já conhecido pelo alto índice de acidentes, foi palco de mais uma tragédia anunciada.
Uma colisão envolvendo um automóvel Fiat Sedan e uma motocicleta deixou um homem em estado grave e escancarou, mais uma vez, a completa omissão do poder público com a segurança viária na região.
O local do acidente é um retorno utilizado diariamente por milhares de motoristas que trafegam entre o Interior e a Capital, mas também por aqueles que acessam a Estrada da Vaca Morta, uma via secundária muito procurada por moradores para encurtar caminho até as comunidades de Sítio São José, Pedro de Souza, Vaca Morta, Estrada da Caponga, UPA do Cascavel e adjacentes.
No entanto, o que deveria ser apenas mais um ponto de conversão se transformou em uma verdadeira armadilha.
A falta de iluminação pública torna o trecho um breu absoluto durante a noite. Quem precisa fazer o retorno ou apenas cruzar a pista é obrigado a arriscar a vida no escuro, contando apenas com os faróis dos veículos para tentar enxergar algo.
Para piorar um cenário que já é caótico, o mato alto tomou conta das margens da rodovia, cobrindo completamente a visibilidade de quem tenta acessar a via principal ou fazer a conversão.
De acordo com informações colhidas pela reportagem com populares que presenciaram a cena e com a Polícia Rodoviária Estadual (PRE), a dinâmica do acidente revela como a falta de infraestrutura contribui diretamente para a ocorrência de tragédias.
A motocicleta, ocupada por dois homens, trafegava no sentido Capital (Fortaleza) em direção ao Interior. Ao se aproximar do quilômetro 48, o condutor sinalizou e tentou acessar o retorno para pegar o desvio que leva à Estrada da Vaca Morta.
Foi quando a tragédia aconteceu. No mesmo instante, um Fiat Sedan que seguia no sentido oposto, ou seja, do Interior em direção à Capital, realizava a travessia na pista para concluir a manobra no retorno.
Ao atravessar a via, o motorista do carro simplesmente não viu a motocicleta que se aproximava. A visibilidade era zero.
O mato alto e a escuridão total formaram uma barreira intransponível. O impacto foi violento e inevitável. Com a colisão, a motocicleta foi arremessada contra o asfalto e, instantaneamente, pegou fogo.
As chamas se alastraram rapidamente, consumindo a estrutura da moto em segundos e transformando a pista em uma cena de filme de terror.
Imagens obtidas com exclusividade pela nossa equipe mostram o momento em que a motocicleta arde em chamas no meio da rodovia, enquanto motoristas que passavam pelo local buzinam desesperadamente para alertar outros veículos sobre o perigo com o fogo que parecia incontrolável.
O piloto da motocicleta, cuja identidade ainda não foi oficialmente revelada, foi socorrido em estado gravíssimo por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e encaminhado às pressas para uma unidade hospitalar da região.
O carona, que também estava na moto, sofreu ferimentos, mas seu estado de saúde é considerado menos grave. Os ocupantes do Fiat Sedan, embora bastante assustados, escaparam com escoriações leves, mas o trauma psicológico certamente ficará marcado para sempre.
Moradores da localidade de Mangueiral não escondem a indignação. Para eles, o acidente do último dia 05 de março não foi uma fatalidade, mas sim o resultado previsível de anos de abandono e negligência.
"A gente vive pedindo socorro. Esse retorno é uma verdade roleta-russa. À noite, você não vê absolutamente nada. O mato está tão alto que parece um muro.
Você entra no retorno sem saber se vem carro, se vem moto, se vem caminhão. É uma loucura. A gente já sabia que uma hora ia acontecer uma tragédia dessas", desabafou, visivelmente abalado, um comerciante que trabalha há mais de dez anos às margens da rodovia.
A situação, que já era grave, piorou significativamente nos últimos anos. Há poucos metros do local do acidente, no mesmo sentido onde a moto trafegava, existia uma lombada eletrônica.
Apesar de não resolver o problema estrutural da falta de iluminação e da visibilidade zero no retorno, o equipamento pelo menos obrigava os motoristas a reduzirem drasticamente a velocidade ao se aproximarem do trecho.
No entanto, sem qualquer explicação ou aviso prévio, a lombada foi retirada. Desde então, a velocidade média dos veículos no local disparou, e o medo dos moradores só fez aumentar.
"A lombada era a única coisa que freava a imprudência e a velocidade aqui. Tiraram ela e não colocaram nada no lugar. Não tem radar, não tem faixa elevada, não tem iluminação, não tem roçagem. É o Governo virando as costas para a gente e deixando a gente à própria sorte. Até quando vamos enterrar vítimas desse descaso?", questiona, com lágrimas nos olhos, um motociclista que passa pelo retorno todos os dias para ir ao trabalho.
A localização do retorno torna a situação ainda mais crítica e preocupante. O trecho fica a poucos metros do Engenho da Maior Rapadura do Mundo, um dos mais importantes pontos turísticos do município de Pindoretama e de todo o litoral leste do Ceará.
Diariamente, dezenas de ônibus de turismo, lotados de visitantes de todas as partes do Brasil e até do exterior, cruzam o local para conhecer a famosa atração.
A grande movimentação de veículos pesados e de turistas desavisados, que muitas vezes tentam atravessar a rodovia a pé para tirar fotos, transforma o ambiente em uma verdadeira bomba-relógio.
Enquanto os destroços da motocicleta carbonizada e o Fiat Sedan amassado aguardam a perícia, a comunidade de Mangueiral e de Pindoretama faz um apelo desesperado e urgente às autoridades competentes, especialmente ao Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (DETRAN-CE).
O pedido é simples, mas fundamental para salvar vidas: a roçagem imediata do mato para devolver o mínimo de visibilidade aos condutores, a instalação urgente de iluminação pública no trecho do retorno e a recolocação de redutores de velocidade, sejam lombadas físicas ou eletrônicas.
Até que essas medidas básicas sejam tomadas, o retorno do quilômetro 48 da CE-040 continuará sendo, para o desespero de todos, um verdadeiro "cemitério de motos", uma armadilha mortal à espera da próxima vítima.

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